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O ambientalista José Truda Palazzo Jr. é presidente da Coalizão Internacional da Vida Silvestre (IWC/BRASIL) no Brasil, integrante do Grupo Especial de Mamíferos Aquáticos do IBAMA, co-fundador do Projeto Baleia Franca com o Vice-Almirante Ibsen de Gusmão Câmara em 1982 e vice-comissário do Brasil na Comissão Internacional Baleeira (CIB) – atualmente, comissário interino. Nesta entrevista dividida em três partes, Truda discute inicialmente o que mudou com a transformação do litoral brasileiro em santuário de baleias e golfinhos, a partir de dezembro, e fala sobre a luta pela criação do Santuário de Baleias do Atlântico Sul, que em junho terá novo round nas Ilhas Madeira, onde acontecerá a próxima reunião da CIB. Nas próximas duas semanas, o ambientalista comentará a importância dos guias de monitoramento de Agência Nacional de Petróleo (ANP) e as perspectivas de expansão do turismo de observação de baleias.

CRE: O que mudou nesses quase 30 anos desde que o Projeto Baleia Franca foi fundado?

Truda: Cresceu bastante a população de baleias de lá para cá. E com as medidas de proteção e o estímulo ao turismo, ela virou símbolo do estado de Santa Catarina. Mudou a compreensão em relação ao animal. Há 20 anos, muitos pescadores tinham medo das baleias, jogavam foguetes de sinalização quando elas se aproximavam. Hoje, há um total respeito. Quando comecei, você tinha que andar quilômetros para avistar uma mãe com seu filhote no litoral catarinense. Agora, na temporada, você tem quase cem por cento de certeza de que verá baleias todos os dias nos melhores locais de observação.

O que significa, de forma prática, a transformação do litoral brasileiro em santuário de baleias?

De forma prática, há duas áreas de repercussão importantes. A primeira é doméstica: apesar de haver proibição de caça de baleia no Brasil desde 1987, não havia nada mais formal quanto à política de estado. Agora tem. Acaba a discussão infernal que durou mais de 20 anos de que se deveria apoiar as caça sustentável. A política de estado é, formalmente, de uso não-letal. A outra é a repercussão internacional, de reforçar a busca, desde 1998, da criação do santuário do Atlântico Sul.

O que falta para o santuário do Atlântico Sul se tornar realidade?

Falta uma quantidade de votos. A última votação na reunião da CIB (Comissão Internacional Baleeira) foi há dois anos, e conseguimos 60% dos votos a favor do santuário. Mas qualquer decisão da CIB precisa de 75% dos votos para ser aprovada. A próxima vai ser em junho, na Ilha da Madeira. Está sendo negociado um pacote de medidas que agrade aos dois lados da questão, um pacote de consenso. O Japão está pedindo a legitimação da caça costeira, interna. Nós estamos pedindo o santuário. Podemos entrar num acordo, mas tem que ver o que está sendo proposto. Tem que estar incluído o fim da chamada caça científica. A convenção é de 1946, está ultrapassada e permite que se cace qualquer coisa com fins científicos. Desde 1986 a caça comercial está proibida, mas o Japão usa essa brecha para fazer caça comercial disfarçada de científica. Só que os bichos acabam no mercado, não no laboratório. Queremos acabar com isso e criar o santuário, mas dando algo em troca, que pode ser a caça costeira. Para o Brasil, interessa primeiro afastar a caça do Hemisfério Sul, que tem potencial para usos não-letais, como pesquisa e turismo, e criar o santuário.

Que países insistem na caça de baleias, além de Japão? E como garantir que esses países respeitem santuários como o litoral brasileiro?

O Japão coordena um bloco de países pequenos, que apóiam a caça em troca de ajuda econômica. São países como Congo, República da Guiné, Ilhas Salomão, Ilhas Marshall, Grenada, Santa Lúcia... E há Islândia e Noruega, na Europa. Hoje em dia o mercado para carne de baleia está restrito mesmo para Japão, Islândia, Noruega e, um pouco, Coréia do Sul. E é um mercado muito monitorado. Não tem como colocar no mercado a carne de uma baleia caçada no Brasil, porque tudo é monitorado.

Na semana que vem, a importância do respeito aos guias de monitoramento na prospecção de petróleo e gás natural.

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