Notícias sobre Regulação


Entrevista com a pesquisadora Miriam Marmontel, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá: “O peixe-boi amazônico é uma espécie vulnerável”

A pesquisadora Miriam Marmontel, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, há 15 anos trabalha com manejo e conservação da vida silvestre em reservas da Amazônia: Mamirauá e Amanã. Nos últimos anos, um de seus focos tem sido o projeto de reabilitação de filhotes de peixes-bois amazônicos em um centro conservacionista de base comunitária. Na primeira parte desta entrevista ao site do CRE-Brasil, Miriam Marmontel revela que a conscientização das comunidades ribeirinhas amazônicas em relação à conservação dos peixes-bois, de outros mamíferos aquáticos e dos quelônios esbarra em tradições e hábitos arraigados.

Qual a situação atual do peixe-boi amazônico?

Ele é uma espécie vulnerável. Mas faltam dados para se ter uma noção mais precisa. Antigamente havia uma caça muito intensa destes animais e, ao que parece, ela diminuiu um pouco, mas ainda existe forte. Antes, eles eram caçados por sua carne e seu couro, que era até exportado. Hoje, mais pela carne mesma. Os caçadores são membros de comunidades ribeirinhas amazônicas, é uma tradição para eles. A gente está há 16 anos nas reservas de Mamirauá e Amanã, conhece os caçadores, conversa com eles, mas não percebe uma mudança de hábitos. É algo muito arraigado nessas comunidades. E que dá algum status ao caçador, porque caçar peixe-boi amazônico não é fácil.

Por que não é fácil?

Porque exige uma enorme paciência. Os peixes-bois são muito ariscos, se escondem ao ouvir barulhos. O caçador tem que perceber os vestígios que eles deixam, muito discretos, geralmente capim mastigado. Podem ser horas ou mesmo dias de espera, até acertar um com o arpão. Só que eles são muito grandes, então depois de acertar o caçador ainda tem que lutar com a presa. O preço regula com o da carne bovina. O comércio de carne de peixe-boi é proibido, mas o caçador já conhece os caminhos, sabe para quem vender, como vender.

Há outras ameaças ao peixe-boi amazônico?

A caça é a mais importante, mas há também as malhadeiras, grandes redes para capturar peixes, desde os miúdos até os maiores, como tambaquis e pirarucus. Um peixe-boi adulto consegue rasgar a rede e escapar. Mas os filhotes não conseguem sair, ficam presos. Temos perdido muitos animais assim. E muitas vezes os caçadores se aproveitam dessa situação, porque quando um filhote fica preso, a mãe não vai embora, fica do lado. Se o caçador vê, captura os dois.

Nestes 16 anos, houve um trabalho de conscientização dessas comunidades ribeirinhas?

Todos foram envolvidos, ajudaram a construir as reservas, querem ajudar na conservação e manejo das florestas, de pescados... Mas cada comunidade tem sua vocação, e a algumas não interessa o manejo e conservação de peixes-bois. Entendem que é uma espécie ameaçada, mas não conseguem mudar seus hábitos. Essa conscientização e mudança de atitude em relação a peixes-bois e quelônios tem sido muito difícil.

E quanto aos outros mamíferos aquáticos da Amazônia?

Estão todos ameaçados. O boto aparentemente está com uma população boa, mas eles também têm caído em redes, em malhadeiras. E em 2000 começamos a identificar um novo movimento de caça aos botos, que cada vez mais são pegos para que se extraia sua gordura, usada na pesca de piracatinga (uma espécie de bagre típica da Amazônia). Há ainda as lontras... Estamos acompanhando uma população de ariranhas (lontras grandes típicas da região), que está crescendo bastante. Só que os pescadores começam a abatê-las porque elas roubam peixes das redes, e eles começam a vê-las como competidoras. Mas a gente tem percebido que os próprios animais estão aprendendo a se defender.

Quais as perspectivas em torno da mudança de mentalidade nas comunidades ribeirinhas, em relação à caça comercial de mamíferos aquáticos amazônicos?

Estamos fazendo um trabalho forte com as crianças, porque a cabeça dos mais velhos é difícil de ser mudada.

A segunda parte da entrevista com Miriam Marmontel será publicada na segunda-feira que vem, dia 4 de maio.

© 2007 CRE Brasil - Todos os direitos reservados.