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A pesquisadora Miriam Marmontel, do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, há 15 anos trabalha com manejo e conservação da vida silvestre em reservas da Amazônia, em Mamirauá e Amanã. Nos últimos dois anos, uma de suas meninas-dos-olhos tem sido o projeto de reabilitação de filhotes de peixes-bois amazônicos em um centro conservacionista de base comunitária. Na segunda parte desta entrevista ao site do CRE-Brasil, Miriam Marmontel fala sobre as diferenças entre o peixe-boi amazônico e o marinho e conta que os dois filhotes que são atualmente amamentados no centro de Amaná, Piti-Aranapu e Benedito Yavari, devem ser reintegrados à natureza em setembro ou outubro deste ano.

A que resultados chegaram as pesquisas feitas nas reservas de Mamirauá e Amaná?

Fizemos uma pesquisa de radiotelemetria por vários anos. E concluímos que os peixes-bois da Amazônia ficam em Mamirauá na cheia, e na seca migram para a terra firme, em Amanã. Isso foi importante porque mostrou que não adianta montarmos uma rede de proteção no rio, precisamos atuar na terra firme também. Temos voluntários por toda a reserva, que trabalham até autuando quando vêem um carregamento de peixes-bois. Mas é uma área muito grande. E, na cheia, vira um grande lençol d’água, com várias entradas, canais, igarapés... Uma água só. É impossível fiscalizar tudo.

O que é feito dos filhotes resgatados em redes ou em poder de caçadores?

A gente tem uma preocupação muito grande com os filhotes, são resgatados cerca de 20 por ano. A maioria vai para o centro de reabilitação no Inpa (Instituto de Pesquisas da Amazônia), em Manaus, onde há grades tanques onde eles podem se recuperar, ou para uma reserva hidrelétrica na Bahia, também com tanques. O problema é que o ideal é que cada animal fique em reabilitação por no máximo dois anos antes de serem soltos novamente na natureza, reintegrados. Mas nessas reservas, por medo de os animais serem caçados, eles acabam sendo mantidos por muitos anos. São cerca de 70 animais que não estão na natureza, e com isso não se abre espaço para que novos animais sejam recuperados. Tem que soltar em área protegida, dar uma chance ao animal. E mantê-los é um custo enorme, os tanques têm que ter filtros poderosíssimos. Colocá-los de volta na natureza é bom para os animais e para as instituições. Por isso, nós também criamos um centro conservacionista de reabilitação, com uma piscina flutuante na reserva de Amanã.

Como funciona este centro?

Deixamos os filhotes ficarem enquanto são amamentados, o que dura cerca de dois anos, e depois os soltamos. É algo mais simples, colocamos um cercadinho no próprio rio, o que faz que não haja a necessidade de filtros, já que o próprio rio faz a filtragem dos dejetos. E há um contato da comunidade com esse centro, que é de base comunitária. Os moradores vêem nosso esforço, ajudam, e com isso se conscientizam. Estamos com dois peixes-bois lá. O Piti-Aranapu está lá há dois anos e estamos tendo uma certa dificuldade em e desmamá-lo, ele não quer trocar o leite por capim e acaba perdendo peso quando forçamos a barra. Aí voltamos para o leite, já que ele tem que estar forte quando for solto. Ele foi resgatado de uma rede de pescador. E o Benedito Yavari chegou em fevereiro. É um filhote maior, que já come capim. Também foi pego por uma rede, e um agente ambiental, ao ver que a mãe não estava perto provavelmente por ter sido abatida por caçador, o levou para casa e nos avisou. Pretendemos soltar os dois em setembro ou outubro.

Qual a diferença entre o peixe-boi amazônico e o marinho?

Todos os dois são parecidos, são parentes do elefante. Mas o amazônico é menor, chega a três metros, e não tem unhas. O marinho chega a quatro metros e tem unhas. E o amazônico tem uma mancha branca no peito, cada uma diferente da do outro, como uma impressão digital. O marinho não tem. O marinho entra em estuários e suporta bem. Mas o amazônico não aguenta a água salgada do mar. E o marinho está bem mais ameaçado, sua população é pequena, cerca de 500 indivíduos ao longo da costa brasileira. Não há uma estimativa de quantos indivíduos amazônicos existem, mas é bem mais do que isso.

Como funciona o esforço de conservação do peixe-boi marinho?

O Projeto Peixe-boi e as entidades que trabalham com peixes-bois marinhos conseguiram reverter a caça, transformaram os caçadores em educadores. A caça já não é uma ameaça para os peixes-bois marinhos. O grande problema é o encalhe dos filhotes, causado pelo assoreamento dos estuários. Por causa disso, as mães não conseguem mais entrar nos estuários para ter os filhotes, acabam tendo em alto mar e, por eles serem pequenos, são jogados para as praias, onde encalham. Os que são resgatados vão para centros de reabilitação. Existe uma rede de encalhe nordestina, os animais vão principalmente para Natal e Itamaracá. E depois são devolvidos ao mar. Há uma reciclagem. Outro problema são as embarcações costeiras, muitos peixes-bois marinhos são abatidos por elas. Aqui é um problema não tão grande, mas na Flórida isso é muito sério.

Clique aqui para ler a primeira parte da entrevista com a doutora Miriam Marmontel.

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