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Pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Salvatore Siciliano há dez anos coordena o Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos) – que, por sua vez, estendeu seus estudos para aves marinhas e quelônios desde que o Cenpes (Centro de Pesquisas) da Petrobras começou a patrocinar o projeto, em 2004. Nos últimos anos, o trabalho do GEMM-Lagos resultou na publicação de dois livros da série Guias de Campo: Fauna Marinha da Bacia de Campos: Baleias, botos e golfinhos na Bacia de Campos e Aves Marinhas na Bacia de Campos, ambos da Editora São Miguel. Neles, os pesquisadores descrevem os hábitos das aves marinhas da região e a presença de cetáceos na Bacia de Campos, principal área de produção de petróleo no Brasil. Nesta primeira parte da entrevista, Salvatore Siciliano fala sobre como foi feito o monitoramento das espécies da região e sobre seus resultados.

Como foi feita a pesquisa? Durou quanto tempo?

O GEMM-Lagos completou dez anos neste mês de julho. São dez anos de monitoramento regular da Região dos Lagos. Eu tinha trabalhado em Abrolhos (arquipélago no sul da Bahia), com populações de baleia jubarte. Na época, fazia doutorado no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e queria estudar o ciclo migratório por completo, que por sua vez completa-se em Abrolhos. A ideia era usar o Pontal do Atalaia, em Arraial do Cabo (na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro) como ponto de observação. Trabalhamos cinco anos com avistagem em ponto fixo. Além disso, havia um trabalho de monitoramento de carcaças de animais em praias da região, um estudo de encalhe. Passamos a ser referência na área. Em 2003, começou o patrocínio do Cenpes da Petrobras já para monitoramento de toda a Bacia de Campos. Em 2006 lançamos o livro sobre cetáceos e um sobre aves. Mas a pesquisa não terminou, ela continua a ser feita. É um projeto de caráter regional e ambiental.

Os primeiros cinco anos, de avistagem em ponto fixo, contribuíram em que para o projeto?

Responderam questões sobre períodos migratórios; mostraram que a baleia minke-anã está presente na área, tanto para invernada quanto veraneio; e que a baleia-de-Bryde é a “vedete”, porque é residente da área, dependente daquele ambiente produtivo. Nessa região nós temos o fenômeno da ressurgência, que traz águas frias e produtivas. A baleia-de-Bryde se alimenta ali, e a minke-anã provavelmente também. Já a jubarte só se reproduz. A baleia franca, por sua vez, fica na Patagônia, na Argentina, sendo que algumas chegam ao Sul do Brasil. Muito poucas alcançam o Sudeste, a Bacia de Campos. É uma área secundária para elas. Cada espécie de baleias tem suas preferências.

O que muda com a chegada do patrocínio do Cenpes?

Foi possível realizarmos três grandes cruzeiros de avistagem, que renderam muita informação. Porque o encalhe é só uma parte da história, embora seja uma fonte muito importante para nosso material de estudo. Mas a avistagem permite uma radiografia da área. O livro é um conjunto das informações tiradas dos encalhes e dos embarques.

Qual o papel da Petrobras nessa pesquisa?

É um projeto do Cenpes, e o que se quer é entender o comportamento das populações desses animais. Qual é a época de reprodução de tartarugas? E das baleias? Eles querem conhecer, para que se possam realizar empreendimentos com o menor impacto, sabendo o momento certo. A gente senta na mesma mesa e conversa. Pode-se dizer: ‘Olha, agora é hora de reprodução de baleias e talvez seja o momento de mudar certas atividades’.

Qual a importância de se realizar mapeamentos como este?

Temos hoje um panorama muito melhor do que há dez anos. Um mapeamento como este permite entender a dinâmica do ambiente, quais componentes são importantes naquele ambiente, desde o fitoplâncton até as baleias. Também mostra qual o papel das espécies residentes naquele meio ambiente e qual o papel daquelas que passam por ele, das espécies visitantes. Nosso grupo estuda hoje cetáceos, aves marinhas e quelônios. Um mapeamento como este é importante para nós sabermos, por exemplo, se a mortalidade de certa espécie em uma certa época é normal ou está fora dos padrões.

A segunda parte da entrevista com Salvatore Siciliano será publicada na próxima sexta-feira, dia 31 de julho.

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