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Com sua ironia quase sempre ofensiva, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, deu um novo apelido a seu colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva: “magnata do petróleo”. A provocação foi feita dia 9 no Chile, durante a Cúpula Ibero-americana, no rastro da imensa repercussão que se seguiu ao anúncio da descoberta da gigantesca reserva petrolífera de Tupi. A revista inglesa “The Economist” utilizou um ditado popular – “Deus é Brasileiro” – para ressaltar que, além da exuberância natural, riqueza mineral e fertilidade do solo, o país tem agora “bilhões de barris de petróleo nas águas profundas”. Segundo o “The New York Times”, o Brasil está se tornando uma potência energética capaz de mudar a política na América Latina. O “Financial Times” destacou que a nova área poderá elevar a importância do país no cenário internacional.

Localizado na Bacia de Santos, o campo de Tupi possui uma estimativa de produção de 5 bilhões a 8 bilhões de barris de óleo e gás natural, o que aumentaria em mais de 50% as reservas nacionais, hoje em torno de 14,4 bilhões de barris. Se as expectativas forem confirmadas, o Brasil passaria no ranking mundial de jazidas petrolíferas do 24° para o 9° lugar, ultrapassando Estados Unidos e Nigéria e sendo superado apenas por Rússia, países árabes e Venezuela.

“Deixaremos de ser um país que se esforçou a duras penas para alcançar a auto-suficiência para nos tornarmos exportadores”, comemorou a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, no dia 8, durante o anúncio da descoberta. Dois dias depois, o presidente Lula cogitou a possibilidade de o Brasil ingressar na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Da nova reserva, foram extraídas amostras de óleo leve, considerado de excelente qualidade e alto valor comercial. Tupi é apenas uma parte de uma imensa camada de rocha denominada pré-sal, com 800 quilômetros de extensão entre os estados do Espírito Santo e Santa Catarina, situada de 5 mil a 7 mil metros de profundidade. Pelas estimativas, a região poderá gerar no futuro até 70 bilhões de barris – quase cinco vezes o volume atual. Foi a primeira vez que se perfurou, testou e avaliou poços em águas tão profundas. Concedida após licitação, a área é operada pela Petrobras, que detém 65% do negócio, em sociedade com a britânica BG (25%) e a portuguesa Petrogal – Galp Energia (10%).

Custos elevados

Em julho do ano passado, a Petrobras já havia anunciado o encontro de petróleo em uma nova camada de subsolo marinho na Bacia de Santos, que representava “um marco histórico”, mas a estatal se mostrou cautelosa na época e ressaltou que eram necessários mais testes. Para pesquisar os reservatórios abaixo da camada de sal, a empresa perfurou 15 poços desde 2005 e investiu US$ 1 bilhão. Em oito deles, o resultado foi positivo. Só para atingir o primeiro, foram gastos US$ 240 milhões e mais de um ano. Com as experiências, o tempo e o custo baixaram: hoje leva-se 60 dias a um custo de US$ 60 milhões. No entanto, alcançar um poço normal custa três vezes menos.

Esses valores mostram que, apesar da euforia com a descoberta, ainda é preciso incrementar a tecnologia de prospecção em águas tão profundas para reduzir os custos e tornar o campo um negócio lucrativo. Atravessar camadas de 2 mil metros de sal, como na Bacia de Santos, exige equipamentos capazes de resistir a altas pressões e temperaturas. No Golfo do México e no Mar do Norte, empresas como Shell, Exxon, BP, Chevron e Total já atingiram esse feito, mas não em profundidade tão grande. Em função das dificuldades operacionais, o mercado internacional trabalha com a previsão de que a reserva só atingirá escala máxima em cinco anos.

Para a extração de gás, por exemplo, a Petrobras ainda estuda uma solução, já que Tupi fica a 250 quilômetros da costa. “Não dá para fazer um gasoduto com essa distância. As alternativas são geração de energia flutuante ou liquefação. Os gastos são muito elevados, mas a qualidade do óleo dá robustez e viabilidade para esse investimento”, avaliou Guilherme Estrella, diretor de Exploração e Produção da estatal. O mapeamento para chegar às jazidas é outro item problemático. Como a deformação do sal prejudica o trabalho de saber o que há debaixo das rochas, são necessárias sondas cujo preço do aluguel pode chegar a US$ 800 mil por dia.

Aproximadamente um quarto de toda a província petrolífera pré-sal já foi concedido para exploração em licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Sozinha ou em parcerias, a Petrobras controla 75% dessas reservas. No mesmo dia em que foi divulgado o sucesso nos testes do Campo de Tupi, o governo brasileiro excluiu 41 dos 312 blocos de leilão programado para a próxima semana. Todos eles na camada pré-sal.

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