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Pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Salvatore Siciliano há dez anos coordena o Grupo de Estudos de Mamíferos Marinhos da Região dos Lagos (GEMM-Lagos) – que, por sua vez, estendeu seus estudos para aves marinhas e quelônios desde que o Cenpes (Centro de Pesquisas) da Petrobras começou a patrocinar o projeto, em 2004. Nos últimos anos, o trabalho do GEMM-Lagos resultou na publicação de dois livros da série Guias de Campo: Fauna Marinha da Bacia de Campos: Baleias, botos e golfinhos na Bacia de Campos e Aves Marinhas na Bacia de Campos, ambos da Editora São Miguel. Neles, os pesquisadores descrevem os hábitos das aves marinhas da região e a presença de cetáceos na Bacia de Campos, principal área de produção de petróleo no Brasil. Nesta segunda parte da entrevista (leia a primeira aqui), Salvatore Siciliano fala sobre a importância de se dar continuidade ao projeto de monitoramento da fauna na Bacia de Campos.

O senhor trabalha com análise da fauna como indicadora de impacto ambiental. O que essa pesquisa com cetáceos concluiu em relação ao impacto ambiental das plataformas de
petróleo na Bacia de Campos?


A gente não tem ainda este panorama traçado. O estudo continua, está em andamento. As plataformas podem até estar agindo positivamente, como atrativos de fauna. A região das plataformas é riquíssima em peixes, por exemplo. Qualquer atividade humana causa impacto. A ideia é entender esse impacto e reduzi-lo ao máximo. O tráfego de embarcações, por exemplo, tem se mostrado potencialmente mais nocivo do que o trabalho nas plataformas, pelas colisões e pelo ruído. Cetáceos usam o som para se orientar, então o ruído dos motores tem muito impacto. E, de longe, nosso maior problema é o lixo que chega com a maré. Temos achados desde copinhos de lanchonete até monitores de computador no mar, e muita sacola plástica. Não é à toa que as tartarugas e aves marinhas aparecem mortas cheias de plástico no estômago.

Então o lixo é um problema maior para esses animais do que as plataformas de petróleo?

De longe! Não diria nem que a plataforma é um problema. Vai ser se houver um vazamento, claro. Isso é um problema sério. Mas a operação em si, não. A questão do lixo é bem mais urgente, e a olhos vistos.

Com o provável boom da exploração da área do pré-sal, a extração de petróleo na região pode representar uma ameaça à vida marinha?

Creio que não, porque hoje as coisas são feitas com o maior cuidado, a partir de estudos. Além disso, há uma fiscalização, um monitoramento.
 
Esses animais sofrem com a caça e a pesca predatória nesta região?

Nessa região, nem tanto. Em outras, há o problema de captura acidental em rede de pesca. Mas na Bacia de Campos isso ainda precisa ser mais bem avaliado.

Qual o próximo passo do estudo?

Partindo desse mapeamento que foi feito, desse entendimento das comunidades, a gente vai focar em alguns grupos, nas chamadas espécies sentinelas. O boto-cinza, por exemplo, é uma espécie residente na área, que traduz bem o ambiente em que vive. A baleia-de-Bryde e as aves residentes também. Essas espécies vão nos dar uma radiografia do ambiente e das mudanças por ele sofridas por causa do aquecimento global, das correntes e das atividades humanas.

Nos últimos anos, a presença de cetáceos têm aumentado na costa brasileira em geral e na Bacia de Campos em particular?

Não é que tenha aumentado, é que quem procura acha. Os estudos são muito recentes para se dizer se aumentaram ou diminuíram. Elas apareceram mais porque a gente está procurando.

A pesquisa e o livro dela resultante causaram polêmica?

Não causaram, felizmente. O Cenpes e a Ensp são instituições muito respeitadas, sabe-se que o projeto é sério. Não é uma aventura.

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