Notícias sobre Regulação


A bióloga Márcia Engel se juntou ao Projeto Baleia Jubarte em 1992, quatro anos depois de sua criação. Em 1996, o projeto virou a ONG Instituto Baleia Jubarte (IBJ), da qual Márcia hoje é a diretora-presidente. São 17 anos observando, pesquisando e trabalhando pela conservação das baleias jubarte, sem perder o encanto da primeira vez. “Ainda me emociono, sempre”, diz ela, sobre cada vez que avista uma baleia. Nesta primeira parte desta entrevista, Márcia fala sobre a recuperação da população de baleias jubarte – espécie que se reproduz anualmente no litoral nordeste do Brasil, especialmente em Abrolhos – na costa brasileira e sobre os cruzeiros de pesquisa realizados pelo IBJ.

O que mudou nessas mais de duas décadas desde que o Projeto Baleia Jubarte, embrião do Instituto Baleia Jubarte, foi fundado? Qual a atual situação das baleias jubartes na costa do Brasil?

A principal mudança é a recuperação da população de baleias jubarte na costa brasileira. É visível como as chances de ver uma baleia jubarte no Brasil aumentaram. A gente faz censos aéreos desde 2001, ano em que avistamos 2.200 indivíduos. Em 2008, já avistamos 7.920. Estamos tendo um crescimento de cerca de 7% ao ano, o que para mamíferos é fantástico. Agora mesmo recebi por e-mail algumas fotos lindas de duas baleias ao lado de uma plataforma de petróleo.

A que se deve esse aumento do número de baleias no litoral do Brasil?

Deve-se ao fim da caça, que é resultado de um grande esforço político internacional. E deve-se também aos trabalhos em relação ao encalhe. Temos um programa de resgate na Bahia e no Espírito Santo, e quando há algum encalhe em outro local do Brasil, a gente acompanha. O Instituto Baleia Jubarte faz parte de uma rede de encalhes coordenada pelo Instituto Chico Mendes. É uma rede bem interessante, em que diversos órgãos e institutos trabalham em conjunto.

Já se chegou ao número ideal de baleias jubarte que passam por nossa costa?

Não. O ideal é o número original, estimado em 30 mil indivíduos. O caminho ainda é longo.

Você estava recentemente num cruzeiro. Como são esses cruzeiros do IBJ?

São cruzeiros de pesquisa. A gente pega amostras de pele para pesquisas genéticas; faz fotoidentificação da nadadeira caudal, que é a impressão digital das baleias; mensura o tamanho dos animais; busca marcas de rede, de colisões ou de parasitas; faz gravações do canto; e pesquisa o impacto dos ruídos humanos sobre eles, como os ruídos de embarcações e os das plataformas de petróleo.

E qual é o impacto que a prospecção de petróleo pode ter nas baleias, golfinhos e peixe-bois que vivem no litoral brasileiro?

A gente trabalha monitorando plataformas de petróleo. A princípio, não encontramos diferenças significativas no comportamento dos animais perto ou longe delas. Mas a pesquisa está começando, é prematuro apontar uma conclusão. Queremos entender este impacto. É recente, mas já temos um resultado curioso: quando muito próximos de uma fonte sonora, seja plataforma de petróleo, embarcações ou outra, os machos jubarte cantam mais alto.

O que mais esses cruzeiros já revelaram?

Já nos revelaram, por exemplo, a área de alimentação desses animais. Graças à fotoidentificação, a gente já encontrou, por exemplo, quatro animais que passaram pela costa brasileira nas Ilhas Sandwich.

Quais são os maiores inimigos das baleias jubarte no Brasil?

O tráfego de embarcações, pelos atropelamentos e colisões e pela interrupção de atividades importantes, como a amamentação, por conta do ruído. A contaminação química dos mares também, além das redes de pesca.

E o lixo, como sacos plásticos?

Isso é mais importante para os mamíferos costeiros. Nossos veterinários encontram muitos golfinhos mortos com o estômago cheio de plástico. Mas as jubartes não ficam tão perto da costa e não vêm para o Brasil para se alimentar. Elas vêm se reproduzir.

Como é a relação entre o Instituto Baleia Jubarte e o turismo de observação de baleias?

Nós não somos uma operadora de turismo, mas trabalhamos incentivando e orientando este turismo de observação a partir das regras estabelecidas pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). A sensibilização que ele gera para a causa da conservação é fantástica, as pessoas se emocionam vendo as baleias. Eu mesma ainda me emociono, sempre. Então temos uma parceria com as operadoras de turismo de observação. A gente orienta em relação às regras, que são simples: não ficar mais de 30 minutos acompanhando um mesmo grupo de baleias; nunca deve haver mais de duas embarcações observando o mesmo grupo; deve-se manter uma distância determinada... São regras feitas para minimizar o impacto sobre os animais. É um turismo em fase de crescimento. No caso das jubartes, ele é mais desenvolvido na Praia do Forte, mas também existe em Itacaré, Morro de São Paulo, Prado e Caravelas.

A segunda parte da entrevista com Márcia Engel será publicada na próxima quarta-feira, dia 9 de setembro.

© 2007 CRE Brasil - Todos os direitos reservados.