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A bióloga Márcia Engel se juntou ao Projeto Baleia Jubarte em 1992, quatro anos depois de sua criação. Em 1996, o projeto virou a ONG Instituto Baleia Jubarte (IBJ), da qual Márcia hoje é a diretora-presidente. São 17 anos observando e pesquisando baleias jubarte – espécie que se reproduz anualmente no litoral Nordeste do Brasil, especialmente em Abrolhos. Nesta segunda parte da entrevista (leia a primeira parte aqui), Márcia fala sobre o impasse vivido hoje na Comissão Baleeira Internacional (CBI), dividida entre os países que defendem as baleias e os que apoiam sua caça: “São posições consolidadas dos dois lados, e com isso a discussão não avança”, analisa.

Ainda há caça de baleias no Brasil?

Não. O bicho é grande demais para que a caça de um deles passe desapercebida.

O que significa, de forma prática, a transformação do litoral brasileiro em santuário de baleias?

Significa uma proteção adicional. Com isso, o Brasil também marca posição. Na América Latina, é um dos líderes entre os países conservacionistas, com Chile e Argentina. Mas o ideal seria aprovar a criação do Santuário do Atlântico Sul, que cobriria toda a área entre o Brasil e a África, abaixo da linha do Equador, chegando até o Santuário Antártico, que já existe.

E por que não se cria o Santuário do Atlântico Sul?

Porque isso teria que ser aprovado pela CBI (Comissão Baleeira Internacional), e a CBI hoje vive um grande impasse. Ela é dividida entre o bloco que apoia a conservação das baleias, do qual o Brasil faz parte, e o bloco da caça, liderado pelo Japão, e que tem a Islândia e a Noruega também. O Japão ainda compra os votos de alguns países do Caribe e da África, compra votos pró-caça. Os conservacionistas querem o fim da chamada caça científica, que é feita por esses três países. Eles, por sua vez, querem derrubar a proibição à caça comercial. São posições consolidadas dos dois lados, e com isso a discussão não avança. Nem o Japão consegue aumentar sua cota de caça, nem nós conseguimos aprovar o Santuário do Atlântico Sul. Nunca há votos suficientes de nenhum dos dois lados. Nos últimos anos, os avanços na CBI são cada vez menores. Tanto que já se está discutindo mudanças nas regras da própria CBI. Ano que vem a reunião será no Marrocos, e ali vai ser bem interessante, porque tem o Estreito de Gibraltar, que é uma área com grande concentração de cetáceos.

Você esteve na última reunião da CBI, na Ilha da Madeira. Apesar do impasse, algo de relevante foi definido?

O que aconteceu de mais importante foi o lançamento de uma proposta australiana de um grande projeto de pesquisa não letal no Hemisfério Sul, o Southern Ocean Research Partnership. Será uma parceria entre vários países, inclusive o Brasil, para mostrar que não é necessário matar baleias para pesquisá-las, e assim acabar com o fundamento da caça científica.

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